CONFISSÃO

 

Eu quero e preciso assumir diante de tudo e de todos que sou louco.Nasci assim, fazer o quê ? Eu sou Louco, e a minha Loucura é só minha, minha e de mais ninguém. Não dou nem um pedaçinho, ela nasceu comigo, é orgânico, é meu talento e por isso me pertence.

Ainda bem que não tomei aquele remedinho pra me curar quando era criança, todos pensavam que eu tomava, mas eu escondia de baixo da língua e cuspia na privada, depois ficava observando, admirando a minha cura ir descarga abaixo, direto pro esgoto, em seguida não podia conter minha gargalhada, ria do prazer de ser louco, ria do prazer de transitar entre as pessoas e todos acharem que eu estava melhorando, ficando normal, igual, até escutava uns comentários, do tipo:

nossa ! como o pequeno esta mais concentrado.., olha ele fez a lição de casa, comeu tudo, foi jogar bola, arranhou o joelho, pulou o muro, brincou de esconde esconde, pega pega, não esta mais falando sozinho, mas eu estava fingindo, dissimulando, fazendo de conta, acreditando na minha melhora, exatamente como um ator faz no palco.

EU E A ERVILHA.

 

ultimamente tenho me comparado com uma ervilha, isso mesmo uma ervilha, às vezes queria ficar enlatado, no meio de tantas outras, bem aconchegante, no escurinho da lata, até algum ser humano abrir esta lata e eu ser engolido de uma vez por todas.

Quem sabe eu nasceria de novo na forma deste mesmo ser que me engoliu e aí meu destino seria engoli-lo na vida real, para que então ele nascesse ervilha e ficasse enlatado e a estória se repetisse.

A Históra de nossas vidas é repetitiva, como se tudo acontecesse em um círculo, a gente nasce, cresce (e como dói ), temos momentos de felicidade, tristeza, encontros, desencontros, sentimos o fogo que arde de uma paixão, o gosto amargo da traição, o prazer que o dinheiro trás, a angústia que a falta dele faz, ai ficamos velhinhos e percebemos que tudo não passou de uma brincadeira, nos tornamos crianças novamente, sem dentes, sem cabelo, mal conseguimos caminhar, precisamos de ajuda para comer, ajuda para as coisas cotidianas da vida, que quando temos na mão não fazemos questão de enxergar.

Eu me sinto parado neste círculo, estático, paralizado, um observador nato, preciso escarrar, gritar, vomitar, enlouquecer de vez, sair vestido de napoleão, sangrar...

para isso eu preciso aprender duas coisas:

1 - Dizer não.

2 - escutar e aceitar o não.

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